
Ando vendo coisas tão lindas... “Cardênio”, do Folias. Que elenco é esse, meu Deus! Todos os prêmios para essa peça. Semestre de se perder e de se encontrar. Todos me perguntam: quando vai voltar pro palco? Lugar de ator é no palco. Não vai mostrar serviço? Não acredito em ator que não está no palco dando a cara pra bater. Ator que só estuda? É teórico, não sabe de nada, estuda porque não sabe atuar, ou não tem coragem...zzz. Ah, meus queridos... Calma. Respirem um pouco. Olhem o dia. Façam coisas que não costumam fazer. Ande com pessoas com quem não costumava andar. Mude o ponto de vista. Faça novos amigos. Prove coisas que nunca provou. Prove pessoas que nunca provou. Corpos que nunca provou. E depois volte pra sua arte. Não precisa ter medo de perdê-la. Se ela é sua, estará sempre em você. Se não é sua, então uma parada pode ser realmente algo ameaçador. Ator-máquina, ator-prestação de contas, ator-mercado-enlatado. Faça uma arte que tenha sentido pra você. Não torne o palco um desfile de banalidades para mostrar serviço. O público não merece isso. Nem o Teatro. Para meu melhor, maior e verdadeiro amigo, meu pai. Que me ensinou absolutamente tudo o que importa: o amor. Velhas Árvores (Olavo Bilac)
Olha estas velhas árvores, mais belas Do que as árvores moças, mais amigas, Tanto mais belas quanto mais antigas, Vencedoras da idade e das procelas... O homem, a fera e o inseto, à sombra delas Vivem, livres da fome e de fadigas: E em seus galhos abrigam-se as cantigas E os amores das aves tagarelas. Não choremos, amigo, a mocidade! Envelheçamos rindo. Envelheçamos Como as árvores fortes envelhecem, Na glória de alegria e da bondade, Agasalhando os pássaros nos ramos, Dando sombra e consolo aos que padecem!
Escrito por Patricia Leonardelli às 23h58
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Agora ferrou tudo de vez... 
1941-2009
Escrito por Patricia Leonardelli às 18h28
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Boa noite, smooth criminal. Você me fez dançar bastante. E o resto é silêncio.
Escrito por Patricia Leonardelli às 01h39
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Irônica mesmo é a vida. Essa foi uma das minhas “ídolas” de infância, e de quase todas as meninas da minha geração, tenho certeza. Eu sempre brincava que era a Kelly, a Jaclyn Smith, que era morena e eu gostava mais, mas entre as minhas primas era sempre uma briga para ver quem seria a Jill. Morreu hoje, de um jeito tenebroso. Que coisa... E ontem eu assisti a uma peça linda, linda. “Gardênia”, no SESC Consolação. E o melhor de tudo é que o público ficou quieto. Sim, as pessoas conseguiram ficar em relativo silêncio por uma hora e meia. Talvez eu possa voltar a freqüentar os teatro e cinemas, então. Há uma esperança. E saí tão encantada com o espetáculo que acabei na Praça Roosevelt, de onde só saí às 5h, lamentando. Glauco, Celso, Edu Estrela, amigos que vinham e iam e garrafas de vinho que vinham e iam. Delícia de noite. Tenho esperança de novo. E para as minhas queridas “Panteras” de Sampa, Mirelle e Flavinha, Chacal: Caleidoscópio Cinemascope a vida é um cristal que se reflete em pedaços a vida como ela é é a coleção dos cacos
vi um filme que Aladim da lâmpada tirava um gênio ele era James Dean que tinha a cabeça a prêmio
eu parti do Irajá passando por Paraty eu ainda chego lá até onde quero ir
vi um filme que Fellini fez num ensaio de orquestra tinha tiro de canhão e acabava numa festa
se no mato me perdi nesse mato me acharei entre mais de mil picadas numa delas sou o rei
eu vi Deus e o diabo dançando na terra do sol Glauber Rocha era o máximo tão bom quanto rock-and-roll
minha estrada é um filme cheio de amor e ódio pra onde quer que me vire cinemascope caleidoscópio.
Escrito por Patricia Leonardelli às 15h40
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Pobre blog. Muito, muito tempo sem escrever. Porque há muitas, muitas coisas a serem feitas. Desde a última postagem, um filme, alguns artigos para revistas sobre minha tese, revisão da tese para publicação, fechar as parcerias de teatro para o segundo semestre e muitas, muitas aulas. Em especial, estou participando de um projeto lindo daqui de São Paulo, do qual eu queria participar a muito tempo: o Teatro Vocacional. Estou dando aula para duas turmas na periferia da zona sul. Está sendo uma experiência única e inesquecível. Não, meus queridos, nós não temos problemas. E uma colega que dá aula no CEU Paraisópolis vem contar que uma aluna lhe procurou por que estava tendo “problemas” com o padrasto, e fugiu de casa e precisava de ajuda. E outra aluna, minha, vem procurar o teatro porque não escuta a própria voz. Não, meus queridos, nós não temos problemas. Só não sabemos agradecer. E eu quero agradecer muito. E estou sendo profundamente transformada pela vida, por isso ando tão quieta. Não tenho muita vontade de cantar os louros das minhas vitórias, nem apontar dedos na cara de quem quer que seja. Não me sinto apta pra isso agora. Por isso os vinte dias de antibiótico e a cirurgia em agosto. Porque tudo me parece diferente a gora. E eu só quero agradecer pela enorme sorte que me foi dada nessa vida. E conhecer cada vez mais vidas, cada vez mais gentes de lugares diferentes. Para Dirceu Alves Jr. Escolhi esse. Sobre amizades que não mudam nem nas maiores tempestades. E que sempre nos lembram dos tempos em que éramos nós mesmos. RECORDO AINDA
Recordo ainda... e nada mais me importa... Aqueles dias de uma luz tão mansa Que me deixavam, sempre, de lembrança, Algum brinquedo novo à minha porta...
Mas veio um vento de Desesperança Soprando cinzas pela noite morta! E eu pendurei na galharia torta Todos os meus brinquedos de criança...
Estrada afora após segui... Mas, aí, Embora idade e senso eu aparente Não vos iludais o velho que aqui vai:
Eu quero os meus brinquedos novamente! Sou um pobre menino... acreditai!... Que envelheceu, um dia, de repente!...
Mario Quintana E para pensarmos sobre como vamos viver hoje, do mesmo autor: SEISCENTOS E SESSENTA E SEIS A vida é uns deveres que nós trouxemos para fazer em casa. Quando se vê, já são 6 horas: há tempo... Quando se vê, já é 6ªfeira... Quando se vê, passaram 60 anos... Agora, é tarde demais para ser reprovado... E se me dessem - um dia - uma outra oportunidade, eu nem olhava o relógio. seguia sempre, sempre em frente ...
E iria jogando pelo caminho a casca dourada e inútil das horas.
Escrito por Patricia Leonardelli às 11h56
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Da série poemas para os amigos, Florbela Espanca para meu querido Júlio César Dória, homem com alma de primavera.

Primavera
É Primavera agora, meu Amor!
O campo despe a veste de estamenha; Não há árvore nenhuma que não tenha O coração aberto, todo em flor!
Ah! Deixa-te vogar, calmo, ao sabor Da vida...não há bem que nos não venha Dum mal que o nosso orgulho em vão desdenha!
Também despi meu triste burel pardo, E agora cheiro a rosmaninho e a nardo E ando agora tonta, à tua espera...
Pus rosas cor-de-rosa em meus cabelos... Parecem um rosal! Vem desprendê-los! Meu Amor, meu Amor, é Primavera!...
E esse, eu queria dedicar ao senhor que pulou do Edifício Itália esses dias. E a todos que pulam, aos que quase pulam e aos que pensam muito nisso.EU
Eu sou a que no mundo anda perdida, Eu sou a que na vida não tem norte, Sou a irmã do Sonho, e desta sorte Sou a crucificada... a dolorida...
Sombra de névoa ténue e esvaecida, E que o destino amargo, triste e forte, Impele brutalmente para a morte! Alma de luto sempre incompreendida!...
Sou aquela que passa e ninguém vê... Sou a que chamam triste sem o ser... Sou a que chora sem saber porquê...
Sou talvez a visão que Alguém sonhou, Alguém que veio ao mundo para me ver E que nunca na vida me encontrou!
Escrito por Patricia Leonardelli às 21h54
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Vôos

Oceano atlântico, em algum lugar entre as costas brasileira e africana. Cai o vôo AF 447, e morrem todos. Muitos turistas, muita gente feliz indo se divertir, outros se reencontrar. Outros, indo conhecer lugares que não conheciam, comemorar alguma data, descansar. Que força levou a vida de todos eles para o fundo do mar, ainda não sabemos, e tenho minhas dúvidas se realmente saberemos algum dia. São Paulo, Centro, por volta das 14h. Anteontem, um senhor de meia idade chegou no terraço do Edifício Itália, pediu seu almoço, que degustou com vinho. Após a refeição, aproximou-se do parapeito do terraço e simplesmente saltou. Dizem que o estrondo ecoou por toda região central. Uma moça que falava no orelhão se assustou com o barulho, e quando se virou percebeu que estava coberta com uma substância vermelha e cheia de pedaços de alguma coisa. Eram os ossos, o cérebro, os pedaços de músculo e de tudo que aquele senhor foi um dia. E ela chorou o dia inteiro. E ontem, depois que fui jantar para receber de volta da Itália meus queridos amigos Verônica e Eduardo, passo no lugar do acontecido e vejo um grupo de curiosos investigando o local. Procuram o que sobrou de uma pessoa, de alguma coisa que vivia até se fundir pra sempre à dureza calcárea da megacidade. Homem-pássaro esmagado no concreto, como os pombos atropelados na rua. Vida-matéria que virou matéria-tristeza impregnada na calçada pra sempre. Ali, no que cruza a Ipiranga com a avenida São Luís. Anti-poesia, anti-beleza. Vida espatifada na via. A vida. Meu Deus.
Escrito por Patricia Leonardelli às 20h16
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Genial Chego do trabalho completamente destruída, depois de um dia de reuniões intermináveis. Nem consigo tomar banho. Jogo o corpo na cama, e ligo a TV, porque estou tão cansada que nem consigo dormir. O que vejo? Conexões Urbanas, programa sensacional do Multishow entrevistando Tia Dagmar, fundadora da Casa do Zezinho, no Capão Redondo. Acaba, passo pro Roda Viva, e lá está Dama Gabriela Leite, senhora puta fundadora da DASPU e da ONG Davida. Não sabe do que estou falando? Vai pesquisar. Mulheres divinas. Pessoas especiais. E vou dormir feliz com a vida televisiva. Eu amo gente, sabe? Amo mesmo.
Escrito por Patricia Leonardelli às 23h02
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Festa da Adidas, Gávea, Rio de Janeiro, maio de 2009. 


É isso mesmo que você está vendo. Sem dúvida, uma marca formadora de opinião.
Escrito por Patricia Leonardelli às 10h49
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Aconteceu, virou...?

Fulano aconteceu. Beltrano aconteceu. Cicrano batalha tanto, mas não sei porque ele não acontece. Eu escuto bastante essa expressão entre a “classe”. É engraçado isso. O cara trabalha uma vida inteira, produz um monte, mas, ainda assim, “acontecer” é algo que está num outro lugar, longe, muito mais legal que o aqui. Onde? Juro que não tenho certeza. Na TV, para o ator, certamente, por mais que os atores de São Paulo não gostem de admitir. No cinema nacional (quem faz com freqüência é ícone). Nos prêmios teatrais, de preferência o Shell, que dá dinheiro e visibilidade. Nas pautas dos SESCs e SESIs. Sei lá mais onde. Eu confesso que acho esse pensamento desalentador, mas sei que ele está, no fundo, guiando muita gente boa, e muitas vezes me contamina também. Bons artistas que se sentem frustrados por que não chegaram ainda nesse lugar especial, que eu imagino qual seja, mas não tenho certeza se é bem lá. O tal sucesso fica parecendo um pouco como ir naqueles lugares em que a hostess pode te mandar embora só porque não gostou da tua cara ou da tua roupa. Você quer muito entrar, mas não vai, e aquela festa, que você nem sabe como é de verdade, fica parecendo a mais legal do mundo. Aí, eu lembro de uma coisa que a Marisa Monte disse numa entrevista, que ela teve de conhecer o sucesso muito cedo. E a palavra “sucesso”, explica ela, vem de “suceder”, que é, grosso modo, fazer acontecer depois no plano das ações aquilo que você construiu antes no mundo das idéias. Isso é o sucesso grego. Acho que fico com essa. Porque? Porque é mais simples, me deixa menos pérfida e mais feliz. Porque, se tem algo que os gregos realmente sabiam é que a vida é uma viagem muito, muito curta.
Escrito por Patricia Leonardelli às 07h34
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Sobre pinheiros e família Acabei de chegar de Porto Alegre, onde gastei o dinheiro que não tinha para passar só dois dias, porque foi aniversário da minha mãe. E ela morreu de felicidade de reunir os filhos. E se essa merda de dinheiro não serve pra isso, eu não sei pra que serve. Na frente da casa da minha mãe, tem um pinheiro muito antigo, que veio de São Marcos, cidade da serra gaúcha onde vive toda minha família por parte de pai. Eles que mandaram o pinheiro num dos nosso natais, acho até que o pai e a mãe ainda eram casados nessa época. O fato é que o pinheiro cresceu absurdamente, e está maior do que todas as outras árvores do bairro. Só tem um pequeno problema: o nosso pinheiro é torto. Não um pouco torto, terrivelmente torto, uma Torre de Pisa natural no pátio. Se cair, não vai apenas destruir o toldo da minha mãe, mas provavelmente os fios de telefone e TV do vizinho, o seu Guilherme. E eu e minha mãe concluímos que esse pinheiro só podia sair assim: o pinheiro Leonardelli, terrivelmente torto e errado. Mas, também terrivelmente forte e duro de quebrar. Assim somos nós.
E esses três haikais (se pronuncia "haikú", áfe que deselegância) vão para minha prima-mais-que-irmã, Luciana Verdi. Como o genial compositor. 
“Relvas de verão sob as quais os guerreiros sonham.” “Frescura: os pés no muro ao dormir a sesta.” “Casca oca a cigarra cantou-se toda.” Matsuô Bashô
Escrito por Patricia Leonardelli às 22h14
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Música para amar o seu amor a noite inteira com poucos intervalos. Perdoem-me, sei que não consigo falar de outra coisa nesses dias. É que estou tentando mudar o mundo. http://www.youtube.com/watch?v=K0adFYuNuns
Electrical Storm U2 Composição: U2 The sea it swells like a sore head And the night it is aching Two lovers lie with no sheets on their bed And the day it is breaking On rainy days we'd go swimming out On rainy days swimming in the sound On rainy days we'd go swimming out (Chorus) You're in my mind all of the time I know that's not enough If the sky can crack There must be someway back For love and only love Electrical storm (3X) Baby, don't cry!
Car alarm won't let you back to sleep You're kept awake dreaming someone elses dream Coffee is cold but it'll get you through Compromise that's nothing new to you Let's see colours that have never been seen Let's go to places no one else has been (Chorus) It's hot as hell, honey, in this room Sure hope the weather will break soon The air is heavy, heavy as a truck We need the rain to wash away our bad luck
You're in my mind all of the time I know that's not enough Well if the sky can crack There must be some way back To love and only love Electrical storm Baby don´t cry
Escrito por Patricia Leonardelli às 15h48
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O amor e os projetinhos Ano passado, eu criei um projetinho pra esse blog que me deixou muito feliz, mas não deu certo. Fotografei um monte de pessoas que moram nas ruas de São Paulo e que, ao contrário do que pregam os higienistas fascistóides da atual administração municipal, embelezam a cidade com suas intervenções decorativas na rua, que para eles é a casa. Algumas fotos ficaram realmente lindas, e devo dizer que me apaixonei perdidamente pelos meus modelos. Como podem, eles, excluídos e vistos como lixo pela elite branca dona da megacidade, devolverem beleza e amor a essa mesma megacidade? Esse mistério eu tentei desvendar com minhas fotos, mas minha formação de jornalista está tão distante que esqueço que precisaria da autorização de imagem de cada um deles para poder publicar minhas fotos aqui, o que tornou meu projetinho inviável. Aí, ontem, enquanto eu pensava no que poderia fazer por aqui, já que não tenho muito talento com as palavras, me veio uma idéia provisória, mas que me deixou satisfeita. Começo hoje a publicar uma série de poemas dedicados aos meus amigos. Poemas de outros, porque não sou poeta, mas que são um jeito de eu dizer que gosto muito deles, e sinto sua falta quando estou longe. Porque é disso que eu quero falar agora, do amor, das escolhas felizes, das mudanças e de tudo que dá certo na nossa vida, nem que seja por um dia. O tempo que durar a página desse blog. O primeiro vai pro senhor Mário Bortolotto, amante dos bons vinhos e das boas mulheres. 
A Uva Não choro, finda a primavera ligeira, a rosa que definha, pois, maturando numa vinha ao pé do monte, a uva me espera: primor do vale viridente, deleite do dourado outono, tão diáfana e tão longa como os dedos de uma adolescente. Aleksander Púchkin
Escrito por Patricia Leonardelli às 13h20
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Quero lhe falar das coisas que aprendi nos livros 
Cheguei do Rio de Janeiro agora. Acabei de tirar minhas poucas coisas da mala, e me dou conta de que esqueci do meu travesseiro no ônibus. Paciência. No metrô, amasso um senhor na tentativa de desembarcar no Paraíso, coitado. Um trabalhador que começa seu dia, amassado pela minha sacola, me sinto péssima. Gente é para brilhar, não para ser amassada, parafraseio a meu modo. Ainda pior me sinto porque ele é a cara do meu Tio Xiro, plantador de uva lá de São Marcos. Não. Gente não é para ser amassada, nem viver mal, nem ser transportada como sardinha. E me ocorre uma ironia inevitável: quantas pessoas temos de amassar para chegarmos ao Paraíso todos os dias? É tudo o que a gente quer, todos os dias, é chegar ao paraíso. Just another day for you and me in paradise. Lembro do Boal. Foi meio fantástica a forma como recebi a notícia de sua morte. Estava andando no Arpoador, perto do edifício onde ele morava, e encontrei uma amiga muito querida, com quem não falava faz um tempo. Depois de colocarmos os assuntos em dia, Ela me contou da morte dele. E ficamos olhando as ondas gigantescas de Ipanema com os olhos cheios d´água. Existem pessoas que são especiais para a gente, e que quando se vão deixam um enorme vazio pessoal na alma. Mas, há pessoas cuja morte representa uma perda pra toda humanidade, e o Boal, na minha opinião, estava nessa categoria. Lembro da admiração por sua obra quando estudei na Dinamarca, e todos meus colegas e todos os integrantes do Odin citavam o Boal durante as aulas. O neoliberalismo foi a maior tragédia desde a segunda guerra mundial. Uma geração inteira, ou duas, de pensadores foi esmagada pela ditadura do pensamento único. Homens como o Boal vieram de uma escola anterior ao colapso cultural neoliberal, e sabiam que a história não terminou, não vai terminar, e a sociedade das mercadorias não é o estágio final nem mais avançado nem sequer o único possível para nossa trajetória econômica. Uma geração que teve o privilégio de aprender a pensar sobre a construção do pensamento, e não apenas sobre os conteúdos do pensamento. Afinal, quer conteúdo? Dá-lhe Google, o substituto fast food e esquizofrênico (e nem por isso, de todo inútil) das enciclopédias. Nada de novo, apenas uma troca de ferramentas. Acho que é sobre isso, por trás dos delírios, que eu queria falar. Eu volto do Rio com a certeza mais do que certa de que eu estava certa o tempo todo. Volto do Rio completamente amada, abraçada, afofada e paparicada pelos cariocas e pelas cariocas, doces criaturas que eu quero tão bem. Amando todos/todas os paulistanos e gente de todas as partes que vive por aqui. Lendo a biografia do meu irmão de alma desde sempre, Maiakóvski, pra tentar entender como um coração pode expandir para o corpo todo, e pulsar, pelo corpo todo, e amar indiscriminadamente, tanto os objetos de afeto quanto a própria dádiva de amar em si. Acreditando cada vez mais na força motriz da história, e no desejo de reconstrução de um processo civilizatório humanista que está engasgado em quase todas as pessoas. E que ainda dá tempo de reformular nossa trajetória sem que se estabeleça uma nova corrida predatória pela hegemonia econômica do planeta, o que este, coitado, não agüentaria (Otávio?). Quantos planetas vamos esmagar até chegarmos ao Paraíso? Quantas pessoas? Quantos animais? Quanta vida... Termino essa postagem e começo o meu dia com duas frases já clássicas e lindas, lindas. A primeira, de “Carmem”: “O poder do amor é maior do que o poder da morte”. E a segunda, de Chaplin, de cuja morte, Jean Cocteau sentenciou: “a morte de Chaplin marca o fim do humanismo na era moderna”: “O homem não morre quando deixa de viver, mas quando deixa de amar.” Ps.: a viagem foi realmente produtiva, e em breve algumas coisas profissionais mudarão radicalmente nesse blog. Boa semana a todos.
Escrito por Patricia Leonardelli às 07h39
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03/05/2009 Morre Augusto Boal, nosso Embaixador Mundial do Teatro Mensagem de Augusto Boal para o Dia Mundial do Teatro, 27 Março de 2009
Todas as sociedades humanas são espetaculares no seu cotidiano, e produzem espetáculos em momentos especiais. São espetaculares como forma de organização social, e produzem espetáculos como este que vocês vieram ver. Mesmo quando inconscientes, as relações humanas são estruturadas em forma teatral: o uso do espaço, a linguagem do corpo, a escolha das palavras e a modulação das vozes, o confronto de ideias e paixões, tudo que fazemos no palco fazemos sempre em nossas vidas: nós somos teatro! Não só casamentos e funerais são espetáculos, mas também os rituais cotidianos que, por sua familiaridade, não nos chegam à consciência. Não só pompas, mas também o café da manhã e os bons-dias, tímidos namoros e grandes conflitos passionais, uma sessão do Senado ou uma reunião diplomática – tudo é teatro. Uma das principais funções da nossa arte é tornar conscientes esses espetáculos da vida diária onde os atores são os próprios espectadores, o palco é a platéia e a platéia, palco. Somos todos artistas: fazendo teatro, aprendemos a ver aquilo que nos salta aos olhos, mas que somos incapazes de ver tão habituados estamos apenas a olhar. O que nos é familiar torna-se invisível: fazer teatro, ao contrário, ilumina o palco da nossa vida cotidiana. Em Setembro do ano passado fomos surpreendidos por uma revelação teatral: nós, que pensávamos viver em um mundo seguro apesar das guerras, genocídios, hecatombes e torturas que aconteciam, sim, mas longe de nós em países distantes e selvagens, nós vivíamos seguros com nosso dinheiro guardado em um banco respeitável ou nas mãos de um honesto corretor da Bolsa - nós fomos informados de que esse dinheiro não existia, era virtual, feia ficção de alguns economistas que não eram ficção, nem eram seguros, nem respeitáveis. Tudo não passava de mau teatro com triste enredo, onde poucos ganhavam muito e muitos perdiam tudo. Políticos dos países ricos fecharam-se em reuniões secretas e de lá saíram com soluções mágicas. Nós, vítimas de suas decisões, continuamos espectadores sentados na última fila das galerias. Vinte anos atrás, eu dirigi Fedra de Racine, no Rio de Janeiro. O cenário era pobre; no chão, peles de vaca; em volta, bambus. Antes de começar o espetáculo, eu dizia aos meus atores: - “Agora acabou a ficção que fazemos no dia-a-dia. Quando cruzarem esses bambus, lá no palco, nenhum de vocês tem o direito de mentir. Teatro é a Verdade Escondida”.
Vendo o mundo além das aparências, vemos opressores e oprimidos em todas as sociedades, etnias, gêneros, classes e castas, vemos o mundo injusto e cruel. Temos a obrigação de inventar outro mundo porque sabemos que outro mundo é possível. Mas cabe a nós construí-lo com nossas mãos entrando em cena, no palco e na vida. Assistam ao espetáculo que vai começar; depois, em suas casas com seus amigos, façam suas peças vocês mesmos e vejam o que jamais puderam ver: aquilo que salta aos olhos. Teatro não pode ser apenas um evento - é forma de vida!
Atores somos todos nós, e cidadão não é aquele que vive em sociedade: é aquele que a transforma!
Augusto Boal
Escrito por Patricia Leonardelli às 16h36
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