Esse eu escrevi para o processo de criação de meu novo espetáculo, que vai estreiar no segundo semestre...
“Quando eu nasci, meus pais pararam de fumar. Ali, eu já aprendia que quando viemos a esse mundo, perdemos algo. Platão dizia que perdemos tudo, tudo que importa, toda a verdade. E ficamos só com as ilusões dos sentidos, como ratinhos do laboratório de Deus que acreditam que suas gaiolas com um pouco de comida e uma rodinha para correr podem ser seus habitats naturais. Calderón vai dizer, milênios depois, que a vida é sonho, e os sonhos, sonhos são. Sonhos SÃO! São mais que a vida, ou a idéia de que existe uma vida objetiva que é a verdadeira, e que não conseguimos atingir. Tudo é sonho? Estamos agora num estado onírico da teatralidade divina, que nos permite a graça de acreditarmos que nossa existência particular é importante dentro do grande jogo daquilo que chamamos “vida”? Que lindo presente. Lindo e inebriante, pois sabemos que essa idéia tornou-se uma obsessão para nós, os macacos- casi-sapiens, a ponto de destruirmos tudo que nos é diferente, tão fortemente cremos que somos especiais. Não somos, e isso dói. É doído para o ego de um macaco tecnicamente evoluído saber que é só parte, e não a mais fundamental, da grande obra. Aí a gente se revolta, e quebra tudo. “Não brinco mais!”, diz o macaco-casi-sapiens, diante do imponderável, e mostra-se mais ignorante do que é. As coisas seguem, não importa se você vive uma semana, um dia ou oitenta anos. Ou duzentos anos, como as árvores. Não importa? Claro que importa! Faz toda a diferença. Dormir por duzentos anos. Ficar uma semana acordado direto. Sonhar. Viver. Lembrar. Mentir. A morte é o grande adormecer ou o grande despertar? E se a vida é sonho, para onde iremos quando acordarmos? Só espero que tenha alguém por lá, pois, como mulherzinha que sou, e assim Deus me fez (logo, disso não tenho culpa), não vou agüentar passar a eternidade sem ter com quem conversar...”
Escrito por Patricia Leonardelli às 16h37
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