Casa
E lá se foi mais um semestre. Cada vez mais meus finais de semestre me parecem finais de ano. Esse foi lindo demais. A peça foi um sucesso que, realmente, nenhuma de nós podia imaginar que fosse se tornar quando iniciamos a nossa miserável produção. Os milagres dificilmente vêm, mas, quando vêm, surgem de onde você menos espera. Foi a lição que aprendi nesse semestre. Agora, vou para Porto Alegre, e lá fico até o final do mês. Cuidando da minha mãe, que vai se operar. E do meu véio querido. Parar de pensar mim, coisa que faço tanto, o tempo todo. Todos fazemos, o tempo todo. Parar de pensar na gente e colocar outras pessoas no centro de nossa vida, por um tempo, pode ser um exercício maravilhoso de percepção. Voltamos agradecidos, valorizando o que temos, amando mais e se irritando menos com tantas coisas insuportáveis que nos cercam. Tolerando menos o que é intolerável em nossa vida. Ontem à noite, passei rápido por um farol na Dr. Arnaldo, e vi de relance um menino chorando no meio fio da calçada. Ele já não pedia nada, só chorava. Não deu para ir para a casa. Dei meia volta na Teodoro Sampaio, e quando cheguei onde ele estava, tinha um motoqueiro dando um monte de bolachas para o menino. O cara também não conseguiu passar o farol e ir para casa. Dei todo o dinheiro que eu tinha (imagine a fortuna!) para o menino, que amanhã vai estar novamente no frio, na rua, com fome, sem amor sem casa, sem nada do que as crianças da idade dele merecem ter.
Eu vou para casa para lembrar que tem certas coisas que não dá para aceitar.
Para lembrar o que não pode ser esquecido nunca.
Escrito por Patricia Leonardelli às 23h18
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