O amor e os projetinhos Ano passado, eu criei um projetinho pra esse blog que me deixou muito feliz, mas não deu certo. Fotografei um monte de pessoas que moram nas ruas de São Paulo e que, ao contrário do que pregam os higienistas fascistóides da atual administração municipal, embelezam a cidade com suas intervenções decorativas na rua, que para eles é a casa. Algumas fotos ficaram realmente lindas, e devo dizer que me apaixonei perdidamente pelos meus modelos. Como podem, eles, excluídos e vistos como lixo pela elite branca dona da megacidade, devolverem beleza e amor a essa mesma megacidade? Esse mistério eu tentei desvendar com minhas fotos, mas minha formação de jornalista está tão distante que esqueço que precisaria da autorização de imagem de cada um deles para poder publicar minhas fotos aqui, o que tornou meu projetinho inviável. Aí, ontem, enquanto eu pensava no que poderia fazer por aqui, já que não tenho muito talento com as palavras, me veio uma idéia provisória, mas que me deixou satisfeita. Começo hoje a publicar uma série de poemas dedicados aos meus amigos. Poemas de outros, porque não sou poeta, mas que são um jeito de eu dizer que gosto muito deles, e sinto sua falta quando estou longe. Porque é disso que eu quero falar agora, do amor, das escolhas felizes, das mudanças e de tudo que dá certo na nossa vida, nem que seja por um dia. O tempo que durar a página desse blog. O primeiro vai pro senhor Mário Bortolotto, amante dos bons vinhos e das boas mulheres. 
A Uva Não choro, finda a primavera ligeira, a rosa que definha, pois, maturando numa vinha ao pé do monte, a uva me espera: primor do vale viridente, deleite do dourado outono, tão diáfana e tão longa como os dedos de uma adolescente. Aleksander Púchkin
Escrito por Patricia Leonardelli às 13h20
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Quero lhe falar das coisas que aprendi nos livros 
Cheguei do Rio de Janeiro agora. Acabei de tirar minhas poucas coisas da mala, e me dou conta de que esqueci do meu travesseiro no ônibus. Paciência. No metrô, amasso um senhor na tentativa de desembarcar no Paraíso, coitado. Um trabalhador que começa seu dia, amassado pela minha sacola, me sinto péssima. Gente é para brilhar, não para ser amassada, parafraseio a meu modo. Ainda pior me sinto porque ele é a cara do meu Tio Xiro, plantador de uva lá de São Marcos. Não. Gente não é para ser amassada, nem viver mal, nem ser transportada como sardinha. E me ocorre uma ironia inevitável: quantas pessoas temos de amassar para chegarmos ao Paraíso todos os dias? É tudo o que a gente quer, todos os dias, é chegar ao paraíso. Just another day for you and me in paradise. Lembro do Boal. Foi meio fantástica a forma como recebi a notícia de sua morte. Estava andando no Arpoador, perto do edifício onde ele morava, e encontrei uma amiga muito querida, com quem não falava faz um tempo. Depois de colocarmos os assuntos em dia, Ela me contou da morte dele. E ficamos olhando as ondas gigantescas de Ipanema com os olhos cheios d´água. Existem pessoas que são especiais para a gente, e que quando se vão deixam um enorme vazio pessoal na alma. Mas, há pessoas cuja morte representa uma perda pra toda humanidade, e o Boal, na minha opinião, estava nessa categoria. Lembro da admiração por sua obra quando estudei na Dinamarca, e todos meus colegas e todos os integrantes do Odin citavam o Boal durante as aulas. O neoliberalismo foi a maior tragédia desde a segunda guerra mundial. Uma geração inteira, ou duas, de pensadores foi esmagada pela ditadura do pensamento único. Homens como o Boal vieram de uma escola anterior ao colapso cultural neoliberal, e sabiam que a história não terminou, não vai terminar, e a sociedade das mercadorias não é o estágio final nem mais avançado nem sequer o único possível para nossa trajetória econômica. Uma geração que teve o privilégio de aprender a pensar sobre a construção do pensamento, e não apenas sobre os conteúdos do pensamento. Afinal, quer conteúdo? Dá-lhe Google, o substituto fast food e esquizofrênico (e nem por isso, de todo inútil) das enciclopédias. Nada de novo, apenas uma troca de ferramentas. Acho que é sobre isso, por trás dos delírios, que eu queria falar. Eu volto do Rio com a certeza mais do que certa de que eu estava certa o tempo todo. Volto do Rio completamente amada, abraçada, afofada e paparicada pelos cariocas e pelas cariocas, doces criaturas que eu quero tão bem. Amando todos/todas os paulistanos e gente de todas as partes que vive por aqui. Lendo a biografia do meu irmão de alma desde sempre, Maiakóvski, pra tentar entender como um coração pode expandir para o corpo todo, e pulsar, pelo corpo todo, e amar indiscriminadamente, tanto os objetos de afeto quanto a própria dádiva de amar em si. Acreditando cada vez mais na força motriz da história, e no desejo de reconstrução de um processo civilizatório humanista que está engasgado em quase todas as pessoas. E que ainda dá tempo de reformular nossa trajetória sem que se estabeleça uma nova corrida predatória pela hegemonia econômica do planeta, o que este, coitado, não agüentaria (Otávio?). Quantos planetas vamos esmagar até chegarmos ao Paraíso? Quantas pessoas? Quantos animais? Quanta vida... Termino essa postagem e começo o meu dia com duas frases já clássicas e lindas, lindas. A primeira, de “Carmem”: “O poder do amor é maior do que o poder da morte”. E a segunda, de Chaplin, de cuja morte, Jean Cocteau sentenciou: “a morte de Chaplin marca o fim do humanismo na era moderna”: “O homem não morre quando deixa de viver, mas quando deixa de amar.” Ps.: a viagem foi realmente produtiva, e em breve algumas coisas profissionais mudarão radicalmente nesse blog. Boa semana a todos.
Escrito por Patricia Leonardelli às 07h39
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03/05/2009 Morre Augusto Boal, nosso Embaixador Mundial do Teatro Mensagem de Augusto Boal para o Dia Mundial do Teatro, 27 Março de 2009
Todas as sociedades humanas são espetaculares no seu cotidiano, e produzem espetáculos em momentos especiais. São espetaculares como forma de organização social, e produzem espetáculos como este que vocês vieram ver. Mesmo quando inconscientes, as relações humanas são estruturadas em forma teatral: o uso do espaço, a linguagem do corpo, a escolha das palavras e a modulação das vozes, o confronto de ideias e paixões, tudo que fazemos no palco fazemos sempre em nossas vidas: nós somos teatro! Não só casamentos e funerais são espetáculos, mas também os rituais cotidianos que, por sua familiaridade, não nos chegam à consciência. Não só pompas, mas também o café da manhã e os bons-dias, tímidos namoros e grandes conflitos passionais, uma sessão do Senado ou uma reunião diplomática – tudo é teatro. Uma das principais funções da nossa arte é tornar conscientes esses espetáculos da vida diária onde os atores são os próprios espectadores, o palco é a platéia e a platéia, palco. Somos todos artistas: fazendo teatro, aprendemos a ver aquilo que nos salta aos olhos, mas que somos incapazes de ver tão habituados estamos apenas a olhar. O que nos é familiar torna-se invisível: fazer teatro, ao contrário, ilumina o palco da nossa vida cotidiana. Em Setembro do ano passado fomos surpreendidos por uma revelação teatral: nós, que pensávamos viver em um mundo seguro apesar das guerras, genocídios, hecatombes e torturas que aconteciam, sim, mas longe de nós em países distantes e selvagens, nós vivíamos seguros com nosso dinheiro guardado em um banco respeitável ou nas mãos de um honesto corretor da Bolsa - nós fomos informados de que esse dinheiro não existia, era virtual, feia ficção de alguns economistas que não eram ficção, nem eram seguros, nem respeitáveis. Tudo não passava de mau teatro com triste enredo, onde poucos ganhavam muito e muitos perdiam tudo. Políticos dos países ricos fecharam-se em reuniões secretas e de lá saíram com soluções mágicas. Nós, vítimas de suas decisões, continuamos espectadores sentados na última fila das galerias. Vinte anos atrás, eu dirigi Fedra de Racine, no Rio de Janeiro. O cenário era pobre; no chão, peles de vaca; em volta, bambus. Antes de começar o espetáculo, eu dizia aos meus atores: - “Agora acabou a ficção que fazemos no dia-a-dia. Quando cruzarem esses bambus, lá no palco, nenhum de vocês tem o direito de mentir. Teatro é a Verdade Escondida”.
Vendo o mundo além das aparências, vemos opressores e oprimidos em todas as sociedades, etnias, gêneros, classes e castas, vemos o mundo injusto e cruel. Temos a obrigação de inventar outro mundo porque sabemos que outro mundo é possível. Mas cabe a nós construí-lo com nossas mãos entrando em cena, no palco e na vida. Assistam ao espetáculo que vai começar; depois, em suas casas com seus amigos, façam suas peças vocês mesmos e vejam o que jamais puderam ver: aquilo que salta aos olhos. Teatro não pode ser apenas um evento - é forma de vida!
Atores somos todos nós, e cidadão não é aquele que vive em sociedade: é aquele que a transforma!
Augusto Boal
Escrito por Patricia Leonardelli às 16h36
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Essa doeu... 
Recebo a notícia de sua morte aqui no Rio, de frente para o Arpoador. O dia está lindo, muito ensolarado. E a cidade está triste como nunca esteve pra mim.
Escrito por Patricia Leonardelli às 10h44
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