Aconteceu, virou...?

Fulano aconteceu. Beltrano aconteceu. Cicrano batalha tanto, mas não sei porque ele não acontece. Eu escuto bastante essa expressão entre a “classe”. É engraçado isso. O cara trabalha uma vida inteira, produz um monte, mas, ainda assim, “acontecer” é algo que está num outro lugar, longe, muito mais legal que o aqui. Onde? Juro que não tenho certeza. Na TV, para o ator, certamente, por mais que os atores de São Paulo não gostem de admitir. No cinema nacional (quem faz com freqüência é ícone). Nos prêmios teatrais, de preferência o Shell, que dá dinheiro e visibilidade. Nas pautas dos SESCs e SESIs. Sei lá mais onde. Eu confesso que acho esse pensamento desalentador, mas sei que ele está, no fundo, guiando muita gente boa, e muitas vezes me contamina também. Bons artistas que se sentem frustrados por que não chegaram ainda nesse lugar especial, que eu imagino qual seja, mas não tenho certeza se é bem lá. O tal sucesso fica parecendo um pouco como ir naqueles lugares em que a hostess pode te mandar embora só porque não gostou da tua cara ou da tua roupa. Você quer muito entrar, mas não vai, e aquela festa, que você nem sabe como é de verdade, fica parecendo a mais legal do mundo. Aí, eu lembro de uma coisa que a Marisa Monte disse numa entrevista, que ela teve de conhecer o sucesso muito cedo. E a palavra “sucesso”, explica ela, vem de “suceder”, que é, grosso modo, fazer acontecer depois no plano das ações aquilo que você construiu antes no mundo das idéias. Isso é o sucesso grego. Acho que fico com essa. Porque? Porque é mais simples, me deixa menos pérfida e mais feliz. Porque, se tem algo que os gregos realmente sabiam é que a vida é uma viagem muito, muito curta.
Escrito por Patricia Leonardelli às 07h34
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