Da série poemas para os amigos, Florbela Espanca para meu querido Júlio César Dória, homem com alma de primavera.

Primavera
É Primavera agora, meu Amor!
O campo despe a veste de estamenha; Não há árvore nenhuma que não tenha O coração aberto, todo em flor!
Ah! Deixa-te vogar, calmo, ao sabor Da vida...não há bem que nos não venha Dum mal que o nosso orgulho em vão desdenha!
Também despi meu triste burel pardo, E agora cheiro a rosmaninho e a nardo E ando agora tonta, à tua espera...
Pus rosas cor-de-rosa em meus cabelos... Parecem um rosal! Vem desprendê-los! Meu Amor, meu Amor, é Primavera!...
E esse, eu queria dedicar ao senhor que pulou do Edifício Itália esses dias. E a todos que pulam, aos que quase pulam e aos que pensam muito nisso.EU
Eu sou a que no mundo anda perdida, Eu sou a que na vida não tem norte, Sou a irmã do Sonho, e desta sorte Sou a crucificada... a dolorida...
Sombra de névoa ténue e esvaecida, E que o destino amargo, triste e forte, Impele brutalmente para a morte! Alma de luto sempre incompreendida!...
Sou aquela que passa e ninguém vê... Sou a que chamam triste sem o ser... Sou a que chora sem saber porquê...
Sou talvez a visão que Alguém sonhou, Alguém que veio ao mundo para me ver E que nunca na vida me encontrou!
Escrito por Patricia Leonardelli às 21h54
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Vôos

Oceano atlântico, em algum lugar entre as costas brasileira e africana. Cai o vôo AF 447, e morrem todos. Muitos turistas, muita gente feliz indo se divertir, outros se reencontrar. Outros, indo conhecer lugares que não conheciam, comemorar alguma data, descansar. Que força levou a vida de todos eles para o fundo do mar, ainda não sabemos, e tenho minhas dúvidas se realmente saberemos algum dia. São Paulo, Centro, por volta das 14h. Anteontem, um senhor de meia idade chegou no terraço do Edifício Itália, pediu seu almoço, que degustou com vinho. Após a refeição, aproximou-se do parapeito do terraço e simplesmente saltou. Dizem que o estrondo ecoou por toda região central. Uma moça que falava no orelhão se assustou com o barulho, e quando se virou percebeu que estava coberta com uma substância vermelha e cheia de pedaços de alguma coisa. Eram os ossos, o cérebro, os pedaços de músculo e de tudo que aquele senhor foi um dia. E ela chorou o dia inteiro. E ontem, depois que fui jantar para receber de volta da Itália meus queridos amigos Verônica e Eduardo, passo no lugar do acontecido e vejo um grupo de curiosos investigando o local. Procuram o que sobrou de uma pessoa, de alguma coisa que vivia até se fundir pra sempre à dureza calcárea da megacidade. Homem-pássaro esmagado no concreto, como os pombos atropelados na rua. Vida-matéria que virou matéria-tristeza impregnada na calçada pra sempre. Ali, no que cruza a Ipiranga com a avenida São Luís. Anti-poesia, anti-beleza. Vida espatifada na via. A vida. Meu Deus.
Escrito por Patricia Leonardelli às 20h16
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Genial Chego do trabalho completamente destruída, depois de um dia de reuniões intermináveis. Nem consigo tomar banho. Jogo o corpo na cama, e ligo a TV, porque estou tão cansada que nem consigo dormir. O que vejo? Conexões Urbanas, programa sensacional do Multishow entrevistando Tia Dagmar, fundadora da Casa do Zezinho, no Capão Redondo. Acaba, passo pro Roda Viva, e lá está Dama Gabriela Leite, senhora puta fundadora da DASPU e da ONG Davida. Não sabe do que estou falando? Vai pesquisar. Mulheres divinas. Pessoas especiais. E vou dormir feliz com a vida televisiva. Eu amo gente, sabe? Amo mesmo.
Escrito por Patricia Leonardelli às 23h02
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