
Era terça-feira de noite. Eu tinha saído do treino no circo e era véspera do aniversário da Geórgia, uma amiga muito querida da acrobacia. Ela detesta comemorar aniversário, mas nós sabíamos que o dela seria no seguinte, então arrastamos ela pro Genial, que é o boteco oficial do pessoal do circo, porque é só atravessar a rua na frente do Galpão onde a gente treina, e os garçons são queridos e a comida é uma delícia, sem falar na caipirinha de frutas vermelhas e de todos os outros sabores que deixam a gente bêbada sem perceber. Isso é coisa de mulherzinha, como diria o Mário, mas é assim que eu sou com bebida, e paciência. Gosto de ficar bêbada automaticamente, principalmente quando não tenho dinheiro para tomar vinho, que é a única bebida de que eu realmente gosto. Mas, não é de bebida que eu quero falar. Então, estávamos no Genial, recuperando todas as calorias que perdemos no treino, quando, de repente, entra no bar uma daquelas mariposas gigantes marrons e pretas que soltam um pozinho nojento por onde passam, e começa a sobrevoar nossa mesa e nos perseguir. Um pesadelo. (Abre parênteses). Quando eu tinha nove anos, gostava muito de borboletas. Até que um dia, o professor explicou que elas só vivem sete dias, e que a maior parte da vida delas acontece no estagio de pupa, dentro do casulo. Desde então, eu não consigo mais gostar de borboletas. Entendam, eu preferia cortar a minha mão a ter de matar um ser tão delicado, mas, para mim, as borboletas ficaram como bichos de mau agouro. Sempre que vejo uma me dá um nervoso de morte forte e esquisito. (Fecha parênteses) Bem, a mariposa-morcego se fixa num cantinho e fica grudada lá que nem um papel de parede macabro esperando não sei o quê. Terminamos, cumprimentamos a Geórgia. Bebidinhas e abraços e beijos e vamos pra casa, que todo mundo trabalha cedo no dia seguinte. Aí, eu abro a porta do meu apartamento e acendo a luz. E quase desmaio de cagaço. Uma mariposa gigante e preta, que lá o sul a gente chama de “bruxa”, dez vezes maior que a do bar, está dentro da minha sala, voando e se batendo que nem um mini-vampiro louco. Não sei como é possível essa criatura ter entrado na sala, se eu deixei absolutamente todas as janelas fechadas quando saí, por causa da chuva. Mas, ela está lá, me assombrando. Rastejo até o interfone e chamo o Barbosa, meu super-porteiro multifuncional, para me salvar. O Barbosa precisa de dois panos de prato para segurar a bicha, cata ela depois de meia hora de combate, e larga pela janela. E eu vou dormir tendo certeza de que algo muito ruim vai acontecer. Certeza absoluta. Ninguém encontra duas bruxas na mesma noite e sai impune. Tudo isso para dizer que, às 6h, minha mãe me liga de Porto Alegre pra me chamar urgente. Vai passar por uma cirurgia de emergência e não sabe o que tem, só que está mal. Entro em surto psicótico, mas consigo um vôo para noite. Chego lá, e tudo já tinha acontecido. Uma apendicite escondida quase leva minha mãe. Mas, enganamos a morte mais uma vez. Não sei por quanto tempo, mas ainda conseguimos dessa vez. Por isso sumi.
Escrito por Patricia Leonardelli às 13h17
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